“Nossa alma é presa a dois
cavalos. Um belo e bom. Outro todo ao contrário. Por isso é difícil o governo
da alma. É que um puxa para um lado. O outro puxa ao contrário. Ao belo e bom
chamaremos de bondade. Ao outro chamaremos de maldade. Ás vezes a maldade morde
o freio e arremessa consigo a alma e o cocheiro. Aí, pobre da alma tomada pela
maldade!” (Fedro)
Fedro
Caio Julio Fedro, nascido na Trácia
(região que corresponde a parte da Grécia e Bulgária atuais), 15 a.C.. Filho de
escravos, provavelmente foi alforriado pelo Imperador romano Augusto. Faleceu
50 d.C..
Procurou enriquecer as fábulas de
Esopo, devido a maioria delas não estarem escritas, porém, transmitidas
oralmente. Sendo assim, ao redigir suas obras, normalmente satíricas ou morais,
tratando das injustiças, males sociais e políticos, expressava as atitudes dos
oprimidos e fortes, ocasionalmente breves e divertidas, pela qual, obteve muito
sucesso séculos depois dada simplicidade em plena Idade Média.
Seguidor de Esopo, fabulista
durante o reinado dos Imperadores Tibério e Calígula, idealizou sátiras dos
costumes e personagens da época. Críticas que proporcionou incomodo ao reino
ocasionando seu exílio. Na época, tudo relacionado a literatura que buscasse
ser espontâneo era considerada obra medíocre. Sendo o único poeta durante o
império de Tibério, publicou cinco obras de fábulas esópicas com alusões aos
acontecimentos da vida.
Provável origem do nome...
Fedro (no original em grego, Φαῖδρος
– Faidros) é o nome de uma das obras escrita por Platão, entre 385-370 a.C. O nome refere-se
a um dos personagens principais do diálogo, que ao lado de Sócrates, discute o
amor como uma metáfora sobre o uso adequado de retórica. A discussão aborda
ainda a alma, a loucura, a inspiração divina, a prática e o domínio da arte.
FÁBULAS
A palavra latina Fábula deriva do verbo fabulare (conversar, narrar),
e desta origina-se o substantivo português "fala" e também o
verbo "falar". A fábula é um gênero literário antigo, encontrado
praticamente em todas as culturas humanas e períodos históricos. No princípio,
assim como os contos de fada, era transmitido na oralidade, o que justifica a
ligação íntima com a "sabedoria popular". Com narrativa pequena,
serve para ilustrar algum vício ou virtude humana apresentando sempre uma lição
de moral. A maioria das fábulas, para representar esses traços do caráter
humano, tem como personagens animais ou criaturas imaginárias (fabulosas).
De acordo com os registros, “As Fábulas” têm origem na Grécia antiga,
tendo como maior representante o “grande contador de histórias”, Esopo (século VI a.C). Ainda que Esopo não tenha
deixado nenhuma fábula escrita, as narrativas orais foram registradas por
alguns autores, dentre eles, se destaca o romano Fedro (15 a.C - 50 d.C). Algumas fábulas de
Fedro são extremamente conhecidas, entre elas podemos citar: "A rã e os
bois", "A raposa e as uvas" e a "O lobo e o cordeiro”.
Ainda sobre
“As Fábulas de Fedro”, a autora Zélia de Almeida Cardoso em sua obra "A
Literatura Latina", cita a importância das fábulas ao estudarmos a poesia
didática latina devido ao seu tom moralista. Segundo a autora, mesmo não sendo
romano, Fedro, foi o primeiro escritor a escrevê-las em latim. Suas fábulas se
compõem em 123 estórias, agrupadas em 05 livros. Inspiradas em textos gregos,
atribuídos a Esopo, Fedro as modificou e escreveu também alguns poemas.
Quanto ao estilo e recursos de Fedro, a autora afirma:
“Utilizou-se do mesmo recurso empregado na fábula
grega – narrar uma pequena história alegórica, cujas personagens são animais
simbólicos, e com ela ilustrar um pensamento ou máxima moral-, mas se
distanciou, em parte, do modelo. Escreveu em versos jâmbicos quando as fábulas
atribuídas a Esopo são em prosa; aludiu claramente a fatos e pessoas de sua
época, o que lhe valeu o exílio, na época de Tibério, quando Sejano, principal
auxiliar do imperador, se viu retratado em alguns poemetos; conseguiu ser
pitoresco, mesmo construindo textos extremamente breves, e primou pela
vivacidade do diálogo.” (CARDOSO,
2011, p. 119)
Este
estilo poético, notável pela pureza e nobreza, é muito imitado por escritores
de várias épocas e nacionalidades. Entre outras, podemos exemplificar a obra
“The True Story of the 3 little pigs! (A verdadeira história dos três
porquinhos1)” de Jon Sciezka publicada em 1991 e traduzida pela Companhia das
Letrinhas publicada no Brasil em 2005.
Uma de
suas obras mais conhecidas
Texto original:
De Vulpe Et Vua
Fame coacta uulpes alta in uinea
Uuam adpetebat summis saliens
uiribus;
quam tangere ut non potuit,
discedens ait:
“nondum matura est; nolo acerbam sumere”.
Qui, facere quae non possunt, uerbis eleuant,
adscribere hoc debebunt exemplum sibi.
Tradução:
A raposa e a uva
Coagida (impelida) pela fome, a raposa cobiçava o cacho de
uva
na alta parreira, pulando com todas as forças;
como não pôde tocá-la, disse, afastando-se:
“Ainda não está madura: não quero apanhá(-la) verde
(azeda)”
(Os) que diminuem com palavras, (as coisas) que não podem
fazer, deverão aplicar para si este exemplo.
Breve comentário:
Nesta fábula,
temos uma raposa que representa metaforicamente uma pessoa maliciosa e astuta,
por outro lado a uva que seria o propósito a ser alcançado por ela. Como é
possível observar, quando este animal percebe não ser possível aos saltos
apanhar as uvas da parreira, conformada, retira-se com as desculpas: ““nondum matura est; nolo acerbam sumere”. (= “Ainda não
está madura; não quero apanhá(-la) verde”). Quantos de nós, quando não atingem
os objetivos, usamos o mesmo artifício da raposa a fim de justificar a si
próprio e aos outros um fato ocorrido? O animal astuto se convence com as
próprias palavras maliciosas e vai embora. Neste sentido, como relata os dois
últimos versos: “Qui, facere quae non possunt, uerbis eleuant, Adscribere hoc
debebunt exemplum sibi.” (= “(Aqueles) que diminuem com palavras, (as coisas)
que não podem fazer, deverão aplicar para si este exemplo”.) A fábula procura nos ensinar que a verdade
deve estar acima de todas as coisas, afinal, ela engrandece o homem. Sendo
assim, não devemos ser como a raposa, símbolo do animal astuto, que fala muito
bem como um sofista, mas não pratica verdadeiramente as suas ações. Enfim, para
viver basta ter um bom discurso retórico, ser esperto e malicioso? Aliás, quantos
infelizmente são assim? Portanto, compete a nós identificar as raposas que nos
cercam e levá-las ao bom caminho, transformando-as em dóceis cordeirinhos.
REFERÊNCIAS
CARDOSO,
Zélia de Almeida. A Literatura Latina. 3ª Edição Revisada, São Paulo: Editora WMF
Martins Fontes, 2011.
Internet:
“Fedro”. Disponíveis em:
Acessados entre os dias
10/04/2014 à 13/04/2014.







